
Nas últimas duas semanas, ONS e ANEEL realizaram eventos para discutir os impactos do fenômeno El Niño que se inicia sobre o setor elétrico brasileiro (SEB). Agentes de todos os segmentos, incluindo grande parte das empresas de transmissão, participaram em peso, demonstrando a relevância do tema e a preocupação em se preparar para eventos climáticos extremos. A realização destes eventos também deixa claro que a resiliência climática está no topo da agenda regulatória e operacional do SEB
Tive a oportunidade de participar de ambos os eventos e trago a seguir um resumo das principais mensagens e implicações para operadores de transmissão de energia. Para a gravação dos eventos, ver link abaixo:
ONS - Reflexos do Fenômeno El Niño no Sistema Interligado Nacional: https://www.youtube.com/watch?v=a2sTblxMNyA
ANEEL - Super El Niño e a resiliência do Setor Elétrico Brasileiro: https://www.youtube.com/watch?v=t2MyeAG_Qh0

Os meteorologistas que palestraram no evento foram unânimes no diagnóstico de que teremos um evento El Niño histórico. A NOAA (agência meteorológica dos Estados Unidos) aponta, em seu último relatório sobre o tema, uma probabilidade superior a 90% de termos um evento classificado como Muito Forte (definido como um índice El Niño de anomalia de temperatura em determinada seção do Oceano Pacífico superior a 2,0℃) e uma probabilidade de 69% deste El Niño exceder todos os demais eventos registrados desde 1950. Vários palestrantes estabeleceram paralelos com El Niños de grandes proporções do nosso passado recente, como o de 1997-98 e o de 2015-16.
Os meteorologistas também explicaram como o El Niño altera os padrões de circulação da atmosfera global e impacta de forma diferente e, muitas vezes oposta, diferentes regiões do planeta. No Brasil, os impactos mais consistentes são a redução da precipitação nas regiões Norte e Nordeste, podendo levar a secas severas, e o aumento da precipitação e de tempestades de forte intensidade na região Sul. Nas regiões Sudeste e Centro-Oeste do Brasil os impactos variam entre El Niños e são mais difíceis de prever. A precipitação no Sudeste, por exemplo, não tem uma correlação forte com a ocorrência do El Niño. Por outro lado, há uma tendência global de maior ocorrência de ondas de calor em anos de El Niño, como os modelos meteorológicos já indicam para o final deste ano em grande parte do Brasil.
Deve-se destacar, no entanto, que há uma incerteza relevante sobre os impactos concretos do fenômeno El Niño em curso. Eventos extremos como as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul são resultantes de uma combinação de fatores, muitos dos quais difíceis de prever com antecedência. A localização dos eventos de maior impacto também é difícil de precisar. Em resumo a mensagem é: “Apertem os cintos, mas não sabemos quando e onde exatamente vai vir a turbulência.”
No segmento de transmissão, os impactos mais destacados pelos participantes são:
Além destes, o fenômeno El Niño pode ter outros impactos nas operações de transmissão como aumento da carga, afetando o fator de utilização das linhas, e redução da navegabilidade na região Norte, criando desafios de acesso para atividades de construção e manutenção..
O evento da ANEEL contou com painel envolvendo quatro grandes transmissoras (Axia, ISA Energia, State Grid e TAESA), que destacaram as suas iniciativas de preparação para o El Niño e resiliência operacional de forma mais ampla. Em resumo, os principais pontos destacados foram:

O El Niño de 2026 se insere em um contexto mais amplo de mudanças climáticas causando drástico aumento da frequência e intensidade de eventos extremos. O fenômeno em curso acentua esses efeitos e reforça a urgência de determinadas ações, mas os investimentos em antecipação e resiliência já ocupavam o topo da agenda de praticamente todos os agentes do setor elétrico. Sem dúvida, o desafio de adaptação ao clima será uma constante para o setor de infraestrutura no século XXI. Felizmente, pude constatar nos eventos do ONS e da ANEEL que passos importantes já foram dados: entendimento aprofundado dos fenômenos climáticos, revisão de processos operacionais, uso de tecnologia e coordenação setorial estão se consolidando como práticas do setor. Na Resilion, nosso papel é apoiar essa jornada com visibilidade em tempo real e inteligência preditiva, porque em um cenário climático cada vez mais volátil, quem vê mais cedo decide melhor.
Felipe Figueiredo
General Manager
Resilion