Tecnologia para monitoramento de queimadas

O inverno de 2026 combina dois regimes atmosféricos distintos sobre a malha de transmissão brasileira. No Sul, frentes frias sucessivas trazem temporais e ventos fortes. Já no interior do Centro-Oeste, de Minas Gerais e do Tocantins, o auge da estação seca eleva as temperaturas e derruba a umidade relativa, condições que, sob um El Niño em fortalecimento e com projeção de intensidade moderada a forte para o segundo semestre, tendem a se prolongar.

Esse cenário cria as condições ideais para queimadas e incêndios florestais. Para as operadoras de transmissão, o fogo não é apenas uma ameaça ambiental: é um evento com consequência financeira direta. Cada desligamento forçado aciona o desconto de Parcela Variável sobre a Receita Anual Permitida (RAP), e o custo cresce com a duração da indisponibilidade, antes mesmo de considerar reparo estrutural, mobilização emergencial de equipes e exposição regulatória.

Por que o fogo derruba linhas?

O fogo não precisa encostar na torre para desligar a linha. Basta a chama e a fumaça passarem sob os condutores. A fuligem e o ar aquecido reduzem a rigidez dielétrica do vão, provocando descarga disruptiva (flashover) e desligamento forçado.

Em paralelo, o calor dilata o condutor e aumenta a flecha, reduzindo a distância em relação ao solo justamente no momento crítico. Depois que o fogo passa, a fuligem depositada nos isoladores mantém o risco elevado até a primeira chuva. E, em casos severos, o estresse térmico causa danos estruturais diretos a fundações, elementos de aço e cabos OPGW.

Na Resilion, defendemos que a gestão desse risco deve ir além do monitoramento meteorológico genérico. Adotamos a estrutura conceitual de risco do IPCC para quantificar o perigo real em cada trecho da rede:

A fronteira tecnológica no monitoramento

As tecnologias de monitoramento de queimadas evoluíram de análises históricas para ecossistemas integrados que combinam sensoriamento remoto, inteligência artificial e computação de borda (edge computing) para oferecer respostas operacionais. As tecnologias já existentes no mercado possuem quatro pilares fundamentais:

  1. Monitoramento via Satélite e Inteligência Artificial: dados do Programa Queimadas do INPE são integrados para mapear a área queimada com atualização diária, superando a antiga limitação de relatórios mensais.
  2. Alta Frequência com Satélites Térmicos: complementa-se a cobertura com operadores de constelações infravermelhas dedicadas — como a OroraTech, que utiliza detecção de incêndio processada diretamente a bordo dos satélites. Isso reduz drasticamente a latência do alerta e cobre a janela da tarde, quando a atividade do fogo atinge seu pico e a revisita de satélites públicos é mais escassa.
  3. Gêmeos Digitais e Modelagem Preditiva: o comportamento do fogo é antecipado. Modelos de perigo cruzam temperatura, umidade, vento e precipitação acumulada para projetar a probabilidade de ignição nos dias seguintes. Em escala de horas, simulações de propagação mapeiam a trajetória das chamas, orientando o isolamento preventivo e o deslocamento de equipes de campo.
  4. Sensoriamento na Borda (Edge Sensing) e Dados Ultralocais: o satélite diz onde o fogo está; a borda diz como a torre está reagindo. Estações metereológicas são instaladas em torres críticas para acompanhar com mais precisão as condições ambientais locais e o uso de câmeras com IA integrada (visão computacional) para identificar com alta acurácia focos de incêndio no entorno da linha.
  5. Manutenção Baseada em Risco: dados históricos de desligamentos por queimadas, estudos climáticos, dados de características dos terrenos entre outras variáveis alimentam modelos preditivos de falha que podem subsidiar decisões de priorização da manutenção. Este planejamento da manutenção considerando o risco (probablidade de falha X impacto) é chamado de Manutenção Baseada em Risco (RBM - Risk Based Maintenance).

Benefícios estratégicos

Essa abordagem multidimensional permite que as concessionárias migrem de uma postura reativa para uma gestão orientada pelo risco real.

A transição para uma manutenção inteligente permite que as companhias abandonem o calendário fixo de roçada e limpeza de faixa. O OPEX passa a ser direcionado exatamente onde o risco de queimada é iminente e a carga de combustível é crítica. Com o monitoramento em tempo real, é possível adotar os procedimentos operacionais adequados e acionar planos de contingência.

Operar às cegas em regiões de alta carga de biomassa e baixa densidade de dados meteorológicos é um risco financeiro insustentável. O uso de tecnologia de dados ultralocais e integrados é o único caminho para transformar o imprevisível em resiliência operacional.